5 clássicos da literatura brasileira que li e não achei graça

Este é um daqueles posts que depois de escritos fazem com que sintamos um pouco de vergonha. É como confessar um segredo, deixar que qualquer pessoa conheça a pequenez humana que existe dentro de você. E por que fazer isso? Para tentar realizar um exercício catártico, assumir publicamente a tristeza que é não apreciar (ou não saber apreciar) um clássico. Obviamente, que criei esta lista tendo noção da sua importância, reconhecendo a qualidade literária de cada obra e etc. Assim como nas milhares de vezes que digo não gostar da Clarice Lispector, o que pretendo dizer é: “Ela é foda, só não é pra mim!”.

Tentar gostar de qualquer coisa nunca deu nem nunca dará certo, e com a literatura não é diferente. Se você leu “A hora da estrela” e achou uma bosta  não conseguiu se identificar com a obra, meu amor, Clarice te despreza! É seguir com a vida e virar outra página.

Pode acontecer também de o livro não nos agradar naquele momento, quando uma nova tentativa for feita em outro período, talvez tudo dê certo (ou não). Como aconteceu comigo e Proust. Há 3 anos tentei ler “No caminho de Swann ” e não passei da página 30, não porque amadureci incrivelmente nos últimos anos, mas porque sempre ia ler o bendito livro antes de dormir. Este não é um tipo de livro pra ser lido de qualquer jeito, com a mente borbulhando e cheia de preocupações, talvez por isso muitos pseudo-intelectuais chamem o livro de chatíssimo sem nem mesmo ter passado do primeiro capítulo – mas isso é história para outro dia.

Mas a pequena lista que elaborei engloba os livros que já li há certo tempo, a maioria na adolescência, e como o título diz, não achei a menor graça. Vamos a ela!

 

5. Vidas Secas – Graciliano Ramos

Talvez esteja sendo injusta com o Graciliano agora. Mas, quando li o livro há uns 8 anos não senti a emoção louca que todo mundo sente quando lê. A leitura flui de uma maneira incrível, gostei de muitas coisas, mas…não é um dos meus preferidos e não fiquei apaixonada por ele. O que pode ter acontecido é que romances regionalistas nunca foram muito meu estilo, por mais que “Vidas Secas” nada tenha a ver com aqueles romances românticos do século XIX, ele carrega o mesmo “clima”.

De qualquer forma, relê-lo-ei qualquer dia desses.

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4. Memórias de um sargento de milícias – Manuel Antônio de Almeida

Sério que esse livro é engraçado? Achei legalzinho, diferente e acabou. Vale a pena a leitura? Lógico que vale, mas não se compara a ler um Machado de Assis. Sempre vi esse livro como uma ficção intermediária entre o Romantismo e o Realismo, não é tão bom quanto Lima Barreto e Machado de Assis, mas também não é tão fraco quanto um Visconde de Taunay, por exemplo.

Esse “Memórias” tem várias coisas interessantes e que foram bastante diferentes para mim quando li na época da escola. Estava muito acostumada com os romances românticos, vinha de uma onda apaixonada por José de Alencar e ler Manuel Antônio de Almeida foi uma surpresa. Porém, ainda não acho uma maravilha. O escritor fez muito bem seu trabalho, mas não me convenceu muito não.

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3. Iracema – José de Alencar

Tinha uma época na minha vida em que achava José de Alencar melhor do que Machado de Assis. Adolescente não sabe de nada mesmo! Ainda acho o Alencar incrível, saio no tapa com quem fala mal dele, mas “Iracema” é indefensável. O sujeito já me escreveu “O guarani”, trinta páginas descrevendo um pé de bananeira, coloca um índio lutando contra uma onça pintada (e vencendo), tinha necessidade de outro romance indianista? Tinha! Ele escreveu três ao todo e perdeu a mão com “Iracema”.

Na minha edição, ao final do romance ainda havia um ensaio do escritor sobre reformas na língua portuguesa que a boba leu pensando que fazia parte do livro. José, “O guarani” é muito bom, por que você foi escrever “Iracema”? Aí não dá, não tem fã que aguente!!!

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 2. Laços de família – Clarice Lispector

E é praticamente impossível fazer uma lista de livros que não gosto sem incluir a escritora brasileira com o olhar mais sexy de todos os tempos: Clarice Lispector.

Quem foi que disse que ler os contos de um autor ajuda na leitura dos romances ainda não deve ter lido este livro. Tá certo que, diferente dos romances, aqui o sofrimento  a leitura é mais fácil, mas não consegui perceber nada, NA – DA  de incrível nesse livro. Somente três contos conseguiram fazer uma leve conexão com minha alma, que foram “Uma galinha”, “A menor mulher do mundo” e “Preciosidade”. Somente esses três foram capazes de fazer leves cócegas no meu coração, bem de leve.

Eu tô num estágio tão grande de desapego com a Clarice que nem ligo mais!

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1. O ateneu – Raul Pompeia

Este é só o pior livro que li na minha vida!!! Lembro do dia que comprei, da expectativa que estava pra ler e do desespero que senti quando estava na página 40 e queria atear fogo nele! Aos quinze anos, um livro que promete contar a história de rapazes que vivem num internato pode parecer a coisa mais maravilhosa do mundo – não é. A escrita era meio truncada, cheia de arcaísmos, os personagens não me cativavam e muitas outras coisas. Para poder falar melhor sobre a história eu teria que fazer uma releitura e eu não tenho motivo nenhum pra me punir assim.

O engraçado é que eu terminei o livro. Fui até o final esperando que fosse melhorar e não aconteceu. Em alguns momentos de raiva já até pensei em indicar a leitura para algumas pessoas inconvenientes, alguns alunos chatos rs mas nunca senti ódio de ninguém a esse ponto.

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Bem, esse é o meu “mural da vergonha”, nem tão vergonhoso assim. Pretendo reler “Vidas Secas” e “Memórias de um sargente de milícias” qualquer dia, dar uma segunda chance para eles. Quanto ao resto, nem toda a eternidade seria capaz de me obrigar a relê-los. Alguns livros mais poderiam entrar nesta lista, mas por ora é só isso.

Até a próxima!

Maratona literária 3.0

O blog Café com blá blá blá está com uma maratona literária bem legal que começa no dia 21/07 e vai até o dia 27/07. O interessante da maratona é cada um estipular sua própria meta, de forma que todos possamos aumentar nosso ritmo de leituras para a semana. Para aqueles que costumam ler 100 páginas por dia (como eu), o bacana é ler talvez 150 e, com isso, conseguir superar suas próprias limitações (ou preguiças) !!!

Para participar é só visitar o site deles, publicar em alguma rede social: Facebook, skoob, You Tube e etc e deixar o link no blog.

Minha meta para a maratona é ler 812 páginas!!! Já que tenho uma maratona pessoal de ler todos os livros da minha estante até o final do ano, aproveitei para colocar na meta dois livros que planejava ler neste mês de julho. Um eu já comecei a ler e o outro ainda vou começar.

São eles:

1. No caminho de Swann – Marcel Proust

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Estou na página 300, então faltam 258 páginas. Este talvez me dê um pouquinho mais de trabalho já que a construção narrativa do Proust não é das mais tranquilas.

 

2. O amante de lady Chatterly – D.H. Lawrence

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Há muuuuito tempo que quero ler este livro e minhas expectativas são altas!!! É quase como se pudesse sentir que vou amar a história, mas vamos ver!!! São 554 páginas e que no total serão 812!

 

Então, é isso!

Boa maratona para todos os participantes!

Eu, leitora compulsiva

Algumas pessoas escolhem levar suas vidas sempre em busca: buscando novos amigos, buscando o caminho da felicidade, o emprego perfeito, o verdadeiro amor. Quem está sempre à procura de novas realidades, novas oportunidades, tem uma probabilidade maior de ser feliz, acredito eu. Essas pessoas não aceitam a monotonia do cotidiano e estão a todo o momento viajando, mesmo que no seu próprio espaço. E tem coisa melhor do que viajar?

Porém, há pessoas que preferem manter uma lealdade ao que lhes é conhecido, têm medo de mudanças e amam a tradição. E existem aquelas pessoas maravilhosas cuja vida não depende de padrão nenhum. Eu sou uma delas. Prefiro viver da forma que seja feliz e não sofro com o desespero de estar o tempo todo procurando uma nova moda, uma nova tendência de desfilar pelo mundo. E antes que este texto vire uma ode ao estilo cool e alegre à la Martha Medeiros, digo que meus amores vieram da era jurássica e eles são as únicas coisas que não aceito e muito menos quero mudar.

Tenho orgulho de dizer que do alto dos meus 26 anos a minha banda preferida ainda é a mesma do que quando tinha 8; a minha matéria preferida também; continuo apaixonada por viagens e amava tanto uma brincadeira que consegui torná-la minha profissão. Fazer disso um trabalho foi só uma desculpa para estar sempre perto do objeto amado (sou dessas pessoas que no vestibular escolhem a carreira baseado em afinidades e não em dinheiro). Este amor é, definitivamente, daqueles que nos definem. Eu sou o que amo, logo, amo o que sou. Assim como histórias de amor que alegram a uns e causam inveja em outros por terem início em fases maternais, muitos já me elogiaram, parabenizaram e criticaram por não reconhecerem sua importância.

Não me lembro da nossa primeira vez, mas com certeza foi com uma revistinha da Turma da Mônica que, a propósito, eu tinha centenas. Cheguei a contabilizar aos 12 anos cerca de trezentos e tantos exemplares. Essas revistas proporcionaram muito mais histórias do que as criadas pelo próprio Maurício de Souza. Aos seis anos de idade, tinha acabado de aprender a leitura silenciosa – sem nem mesmo mexer os lábios – e não havia quem me fizesse ler em voz alta, nem mesmo minha irmã de três chorando e puxando meu cabelo porque queria acompanhar a historinha. Um pouco mais tarde, me desentendi com uma amiga de escola e a safada molhou uma parte da minha coleção, foi perda total e nunca mais quis saber dessazinha.

 

Logo descobri os livros; meu primeiro foi Franklin vai à escola, uma coleção sobre um tartaruguinha tímido e seus amigos animais. Este exemplar rodou pela mão de todos os meus primos até sumir. Uma pena porque aquelas páginas representam o início do meu namoro com a literatura. Nosso relacionamento completa, em 2014, 20 anos e com muitos bons frutos, tenho quase trezentos filhos na estante do meu quarto e são o meu orgulho. Tá certo que alguns dão mais trabalho que outros, cada um tem sua personalidade, mas todos possuem grande significado na minha vida.

Quando criança, adorava as histórias de aventura e os contos investigativos, por isso a coleção Os karas figura na minha lista de livros preferidos. Comecei a ler A droga do amor, aos 9 anos, junto com uma prima mais velha, que precisava fazer um trabalho para a escola. Como ela abandonou a leitura, tive que ajudá-la na elaboração de um resumo para entregar ao professor. Algumas vezes, pessoas mal intencionadas abusaram, no passado, do meu amor pela leitura para conseguir privilégios e utilizaram da minha inocência e orgulho de ser nerd para isso. Como da vez em que meu professor de literatura pediu que lêssemos Madame Bovary, de uma turma de 20 alunos fui a única interessada na leitura e cheguei no outro dia à escola me gabando de ter lido o livro todo em duas horas (tá certo que lemos uma versão adaptada, mas eu não sabia disso na época). Meus amigos me chamavam de aberração, apelido que amei, e passei a tarde inteira daquele dia ajudando os espertos a elaborarem suas redações.

Depois de ter lido (quase) Madame Bovary aos 14 anos e ter entendido um romance “para adultos”, o céu era o limite. Peguei o livro de literatura e fiz uma lista de clássicos: fiquei apaixonada por Senhora, sofri para entender Cem anos de solidão, odiei O ateneu, e não parei. Na adolescência era uma leitora de clássicos, talvez o único livro que fugia desse padrão era Harry Potter, uma das minhas paixões e que ainda não é um clássico, ainda. Dos pouquíssimos leitores amigos que tinha na época, nenhum conhecia Fernando Sabino, ou Carlos Heitor Cony ou Manuel Bandeira, meus ídolos da adolescência. No entanto, idolatravam Meg Cabot e outras escritoras pops da literatura da época e que eu nunca li. Não porque me achava melhor do que eles, mas esse tipo de livro nunca me chamou atenção, eu era apaixonada pela Idade Média, pelo século XIX e curtia muito mais Álvares de Azevedo do que qualquer best-seller.

O engraçado é que há uns 15 anos falar que gostava de Harry Potter era o maior mico entre os adolescentes. Lembro que minha irmã e eu tínhamos o fichário com pomo de ouro e tudo, e por causa dele sofri alguns bullyings; era muito coisa de nerd e ser nerd naquela época não era cool, nem modinha hipster. Quando passei para o ensino médio estava lendo um dos volumes da obra e recebia risinhos e olhares de desprezos das patricinhas da escola. Hoje todo mundo é potterhead. E como odeio essas modinhas, tenho um enorme preconceito com livros que viram febre, ajo como um bicho do mato que vai sondando, sondando até se aproximar. Ainda não fui convencida a ler John Green; ele que continue elogiando Harry Potter por mais tempo até eu baixar a guarda. Além do mais, essa história de casal de namorados lutando contra uma doença cheira a Um amor para recordar de Nicholas Sparks e isso não encaro nunca, mais nem ganhando um vale desconto vitalício no Submarino.

De qualquer forma, tenho orgulho da maneira como esse relacionamento cresceu e, por enquanto, não tenho intenção de mudar nada dele. Pequenas alterações, quem sabe. Não precisei buscar muito para encontrar minha vocação e uni-la com algum tipo de prazer. Não sei para as outras pessoas, mas continuo acreditando que nós, leitores, um dia mudaremos o mundo se nos dedicarmos verdadeiramente ao intenso exercício que pede a leitura.

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Pensamentos sobre a lucidez

           Ensaio sobre a lucidez (Companhia das Letras, 2004, p.325), livro de José Saramago, é uma espécie de continuação de sua obra anterior intitulada Ensaio sobre a cegueira (Companhia das Letras, 1995, p.312). Neste, o autor nos apresenta uma cidade que aos poucos vai sendo tomada por uma cegueira branca, misteriosamente, cada cidadão é acometido por uma cegueira branca. Naquele, podemos dizer tratar-se de uma continuação pois o autor volta a discutir um problema envolvendo a mesma cidade. No dia da eleição municipal, após ter sido feita a contagem de votos, os representantes dos partidos políticos se assustam com o número de votos em branco. Uma nova sessão é feita, porém, os votantes em branco aumentam de 70% para 83%.

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Mais uma vez a cor branca assombra a população, por isso, os governantes decidem instaurar um estado de sítio como punição aos ditos “rebeldes”, e uma investigação é iniciada com fim de descobrir os responsáveis por tamanha perturbação da ordem pública. Através de uma denúncia, o governo descobre uma possível ligação entre esta cegueira e a contada no primeiro romance.

Dessa vez, o foco da história está nos detetives que irão investigar as personagens principais do primeiro ensaio: a mulher do médico e seu grupo. Diferentemente da obra anterior, nesta narrativa a adrenalina não está presente na escrita de Saramago. O clima é outro; o discurso hipócrita e linha dura é, talvez, o grande vilão, a sociedade não é o problema, mas o sistema.

A beleza da história fica por conta da inesperada solidariedade que brota nos cidadãos após as afrontas do governo. Ficamos tanto descrentes quanto esperançosos nesses momentos. Torcemos por aqueles que não se deixam corromper, ou mesmo pelos que devem cumprir o papel da autoridade, mas escolhem o lado humano. Saramago foi acusado por alguns de otimista devido ao final escolhido no primeiro ensaio, no entanto, desta vez o futuro não é tão brilhante, ainda que o lado humano prevaleça sobre o autoritarismo. Será que podemos, na sociedade em que vivemos, crer na vitória de Davi na luta contra Golias? O comportamento adotado pelos cidadãos é verossímil ou somos nós que estamos desacreditados da humanidade?

Mais uma ideia brilhante de Saramago; uma das melhores qualidades de seus livros é essa inquietação persistente ao fim da leitura, tão persistente que se mantém viva por meses fazendo com que busquemos novas perguntas e pensamentos para as situações criadas pelo autor. Contudo, alguns podem sentir a lentidão da leitura e precisem insistir e resistir para compreenderem de que lucidez fala Saramago. A adrenalina e o desespero, presentes em Ensaio sobre a cegueira, foram trocados pelo tom reflexivo e investigativo, isto é, assim como o comissário precisa lidar com as responsabilidades de sua profissão para averiguar uma possível manipulação dos votos, também tem de encarar o desafio do nascimento de sua consciência. É, portanto, este o jogo oferecido aos leitores, somos convocados à reflexão, a narrativa não possui mais um tom emotivo-visceral, o que importa seja talvez a compreensão filosófica da lucidez.

Ensaio sobre a lucidez pode ser visto como um daqueles livros cuja mensagem vai sendo digerida a cada momento da nossa vida. É interessante observar comportamentos e compartilhar ideias tão presentes na sociedade contemporânea. Em ano eleitoral, o voto em branco, principalmente para os eleitores cariocas, pode ser a única saída. Não deve ser vista como uma escolha de covardes, mas talvez a única resposta possível gerada pela consciência lúcida da realidade. E começamos a imaginar sobre a “força” da democracia e sobre a sua possível inexistência. Somente alguns pensamentos soltos dos muitos que nascem das páginas deste ensaio.

Da motivação da escrita

Há pouco mais de duas semanas, estive em uma palestra na UNIRIO sobre imaginação criativa. O palestrante convidado era o escritor português Gonçalo M. Tavares. Conheço muito pouco da obra do Gonçalo, li alguns livros e só. O que mais sei é que, pelo menos em Portugal, é o novo escritor “sensação”, admirado e elogiado em demasia pelo finado José Saramago, ganhador de vários prêmios literários, professor, crítico, poeta, gênio (?). Na palestra conheci um escritor simpaticíssimo, inteligente e engraçado. Admiro muito os escritores que sabem dialogar com o público, aqueles que não se sentem intimidados diante de uma plateia e não vestem uma fantasia de seres sobrenaturais, distantes e antipáticos. Esse, definitivamente, não é o Gonçalo. Fazia piadas, comparava o café português com o brasileiro, explicava calmamente cada metáfora e, o melhor de tudo, conversava com cada um de nós como se fosse somente mais  um apaixonado pela literatura, esqueceu todos os seus prêmios, o fato de ser “invejado” pelo Sa-ra-ma-go e compartilhou a sua sabedoria e seu amor humildemente.

Tudo ia muito bem, já estava encantada pelo Gonçalo, sentindo uma ânsia de ler urgentemente todos os seus livros, feliz por conhecer mais uma pessoa simpática num mundo tão arrogante, até que um cidadão resolve fazer uma pergunta: “O que te motiva a escrever? Qual conselho você deixa para os novos escritores?”. “Excelente” – pensei.  “Silêncio, gente, que agora ele vai falar comigo!”. Eu poderia reproduzir integralmente a fala do Gonçalo – além de gravar toda a palestra também estava anotando algumas passagens – mas, prefiro poupar-me da sensação de esterco de cavalo de bandido! Basicamente, o que ele disse, utilizando uma metáfora forte e também banal, é que as pessoas só deveriam escrever quando sentissem uma necessidade extrema de fazê-lo. A escrita só deve ser feita quando não há mais alternativas (quando uma pessoa está muito tempo sem comer, se alguém lhe oferece um prato de comida, ela não tem outra opção: precisa comer!). Imageticamente, achei muito poética esta comparação. Comparar a fome com a necessidade de escrever. Realisticamente, aham, senta lá, Cláudia!

Continuo encantada com a palestra do Gonçalo, muitas coisas foram mudadas naquele dia em relação ao que penso sobre a literatura, porém, antes de sair com meu livro autografado, fiquei incomodada com o que ele disse. Um gosto amargo na boca, um soco invisível apertando meu estômago. Será que no fundo, bem no fundo, concordo com ele? Senti uma “inveja” esquisita quando ele falou sobre sua necessidade esquizofrênica de escrever, como ficava de mau humor quando não escrevia…que coisa linda! Mas eu não sou assim! Passo semanas inteiras sem escrever uma crônica, um conto e continuo às gargalhadas. Não conheço esse desejo desvairado do Gonçalo de escrever. Apesar do meu blog se chamar Escrita Compulsiva, não tenho nenhuma neurose(nessa área). Anseio  pelo dia que escrever será um refúgio, uma distração, uma necessidade. Hoje, escrever para mim é um hobby, algo que me dá prazer algumas vezes e também me atormenta  quando é uma obrigação.

Isso de ficar de mau humor, sentir falta, acontece comigo em relação à leitura. Eu preciso ler. Talvez seja, antes de muitas coisas, uma leitora, não consigo escrever sem ler, mas o inverso é possível. Tenho uma relação diferente com os livros que já vem de muito tempo, caso de análise. Por isso quero escrever. Eu escolhi ser escritora há uns 8 anos, foi uma decisão que uniu prazer com vontade. Já minha parte leitora veio gravada na alma ou no DNA, como uma forma de reconhecimento do mundo. Lembro-me bem dos livros que li na infância, mas  jamais me recordarei da primeira historinha que escrevi no primário. Então, Gonçalo, devo desistir da escrita? Ficar esperando meu estômago retorcer-se com a ânsia de escrever? Duvido.

Se alguém me pedir um conselho sobre leitura, direi que essa sim deve ser feita com vontade. Por mais que tenha “obrigado” muitos alunos a lerem o que não queriam, não tinha muitas opções naquela época, mas sei que ler por escolha é a melhor forma de se tornar um leitor. Agora a escrita, odeio confessar, mas meus melhores artigos são aqueles que fiz pela imposição dos meus professores. Então, vou continuar escrevendo mesmo sem vontade, mesmo sem leitores, quando quiser e sem precisar. Fazemos tantas coisas desnecessárias e que não são  importantes que façamos, por que não escrever como se fosse a maior inutilidade do mundo?